“Notas de um observador:
O sol não estava lá.
Havia algo fora do lugar no amanhecer do pequeno vilarejo.
A menina de trança foi até a janela ver o que sucedia.
O velho de bengala consultou o serviço metrológico no radio amador.
A senhora de chapéu azul turquesa abriu o jornal em busca do horóscopo,
Enquanto sua filha namoradeira desenhava uma interrogação em cada olhar.
O menino-varrido nem deu conta do que se passava.
Mas ele também nunca expressava a menor reação diante dos problemas coletivos.
Era metido a cientista, o menino,
E toda a gente comentava das experiências químicas e místicas que ele praticava.
Era meio altista, meio bruxo, meio mago.
Dedicava seus dias a botar truques de mágica que nunca davam certo.
Mantinha-se recluso em seu mundo de experimentações.
E não lhe sobrava tempo para manifestações
Como aquela que acontecia lá fora naquele momento.
O fato é que toda a comunidade saiu em protesto.
O bafafá tomou corpo quando finalmente olharam pro céu
E deram por falta dos raios solares que, até então,
Nunca haviam se ausentado do rotineiro amanhecer local.
O astro rei não estava lá, tinha tomado um chá de sumiço.
E cada boca sussurrava: “onde estará? Onde estará?”.
Foi quando o menino-varrido saiu gritando a toda a gente.
Ele estava radiante, pois havia realizado sua primeira mágica bem sucedida.
As palavras atropeladas brotavam de sua garganta como buquês de felicidade.
E nessa hora todos olharam pra dentro dele: O sol estava lá.”
Autor(a): Maíra Viana.
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