Bem-vindos ao Criado-Mudo!



domingo, 18 de julho de 2010

On The Sea

It keeps eternal whisperings around
Desolate shores, and with its mighty swell
Gluts twice ten thousand Caverns, till the spell
Of Hecate leaves them their old shadowy sound.
Often 'tis in such gentle temper found,
That scarcely will the very smallest shell
Be moved for days from where it sometime fell.
When last the winds of Heaven were unbound.
Oh, ye! who have your eyeballs vexed and tired,
Feast them upon the wideness of the Sea;
Oh ye! whose ears are dinned with uproar rude,
Or fed too much with cloying melody---
Sit ye near some old Cavern's Mouth and brood,
Until ye start, as if the sea nymphs quir'ed!

(John Keats).

No Mar.
Mantém sussurros eternos ao redor
de praias desertas, e com suas ondas fortes
Inunda vinte mil cavernas, até que o feitiço
De Hecate deixa seu velho sombrio som.
Muitas vezes, se encontra em temperamento gentil,
Que a menor das conchas ira
Se mover por os dias de onde ele caiu em algum momento.
Quando o último dos ventos do céu forem soprados.
Oh, vós! que seus olhos atormentados e cansados,
Regala-os sobre a amplidao do mar;
Ah, pois! cujos ouvidos estão atordoados com barulho rude,
Ou alimentados com muita melodia enjoativa ---
Sentai-vos perto da boca de alguma caverna velha.
Até comece a vós, como se as ninfas do mar cantassem.

sábado, 17 de julho de 2010

Vou sair.

Vou sair numa manha de domingo,
Fria e opaca, onde o sol não tem vez.
Vou caminhar ao som dos pássaros
E ao vento das árvores.

Seguirei o caminho reto da rua;
Reto e íngreme.
Sentindo o vento frio no rosto
Pálido, entro em êxtase e paro;
Paro minha alma, meu corpo
Continua...

E caminho aonde quer que for,
Sentindo frio e calor,
Na alma...
 
 
(Leo'Brasil)

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O Corvo.

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
       É só isto, e nada mais."

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
       Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
       É só isto, e nada mais".

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
       Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
       Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
       "É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
       Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
       Disse o corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
       Com o nome "Nunca mais".

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
       Disse o corvo, "Nunca mais".

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
       Era este "Nunca mais".

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais, 
       Com aquele "Nunca mais".

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
       Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
       Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
       Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
       Disse o corvo, "Nunca mais".

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
       Disse o corvo, "Nunca mais".

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
     Libertar-se-á... nunca mais!



Autor: Edgar Allan Poe.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Mulher cem faces.

Conto-te uma mulher que pode ser muitas,
Mas é apenas uma, se quer saber.
Ela não pode ser definida, nem dividida;
A teia de sua alma não pode ser desfiada,
Nem decodificada.

Conto-te uma mulher cujo espírito tem
Duas faces, sendo, porém,
A mesma alma; um espírito fragmentado,
Cheio de erros, que se colide com o certo
Da alma. É um modo estranho de reinventar,
Mas é a forma dela própria de mudar.

Conto-te uma mulher que nasce constante
De seu próprio Eu. A história muda sempre
Que o Eu [dela] quer se apresentar forte;
Quando as mazelas de seu espírito abusam,
O Eu [dela] nasce, para reinventá-lo.

Conto-te uma mulher que se reinventa
Todo e cada dia, numa fragmentação
Sem lógica e irregular;
Seu [o dela] personagem difere em cada dia,
Muda seus desejos constantemente.
E não é nada enquanto não é tudo.

(Leo'Brasil)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Gritar.

Eu desejo tudo, e nada tenho
Almejo tudo, e nada tenho.
Alguma coisa sempre me separa
Do que quero, sempre.

Minha sorte é minha força,
Poder derrubar barreiras.
Mas nem todas são fáceis;
São de concreto puro.

E quando meu orgulho sai ferido
Recolho-me temporariamente.
É bom assim, ver se vale
Realmente a pena.

E quando o desejo não é nada
Em frente ao amor, me perco mais,
Desejo, porém, muito mais.
Se gritar, ainda será baixo.

O que sinto é forte demais.
Contradiz minha razão,
Contradiz meus conceitos,
Contradiz-me ainda mais.

O que sinto é mais, muito mais.
Pesa e alivia a dor, é a dor do peso
Que dói ainda mais; dói segurar o amor.
Amar, e não amar o outro.

Ao mesmo tempo, amar é curar.
Mas se não posso amar alguém,
Acumula-se em mim e me consome.
Consome-me não poder despejar
Meu amor em ninguém.

Quando paredes separam duas almas,
Apenas o que pode derrubá-las é o amor
E a coragem de arremessá-lo.

Apenas o que se pode fazer
É gritar e tornar isto real.


Autor: Leonardo Brasil de Matos.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Mensagem (livro) - Nota preliminar.

"O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles.

A primeira é a simpatia; não direi a primeira em tempo, mas a primeira conforme vou citando, e cito por graus de simplicidade. Tem o intérprete que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe interpretar.

A segunda é a intuição. A simpatia pode auxiliá-la, se ela já existe, porém não criá-la. Por intuição se entende aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo, sem que se veja.

A terceira é a inteligência. A inteligência analisa, decompõe, reconstrói noutro nível o símbolo; tem, porém, que fazê-lo depois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia no exame dos símbolos, é o de relacionar no alto o que está de acordo com a relação que está embaixo. Não poderá fazer isto se a simpatia não tiver lembrado essa relação, se a intuição a não tiver estabelecido. Então a inteligência, de discursiva que naturalmente é, se tornará analógica, e o símbolo poderá ser interpretado.

A quarta é a compreensão, entendendo por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia ter dito, pois a erudição é uma soma; nem direi cultura, pois a cultura é uma síntese; e a compreensão é uma vida. Assim certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou no mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes.

A quinta é a menos definível. Direi talvez, falando a uns, que é a graça, falando a outros, que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Conhecimento e a Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma destas coisas, que são a mesma da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo."

Autor: Fernando Pessoa

terça-feira, 6 de julho de 2010

Às vezes, sempre você.

Às vezes, quero te beijar,
Às vezes, não te quero.
Às vezes, quero alvoroço,
A ponto de quebrar.
Mas, sempre, quero ser
Apenas tua razão.





Em "resposta" ao post: Me confundo, te confundo;
http://decifra-me-ou-devoro-te.blogspot.com/
(Otimo)